domingo, 7 de novembro de 2010
Piruetas - Chico Buarque
Uma pirueta
Duas piruetas
Bravo, bravo
Superpiruetas
Ultrapiruetas
Bravo, bravo
Salta sobre
A arquibancada
E tomba de nariz
Que a moçada
Vai pedir bis
Que a moçada
Vai pedir bis
Quatro cambalhotas
Cinco cambalhotas
Bravo, bravo
Arquicambalhotas
Hipercambalhotas
Bravo, bravo
Rompe a lona
Beija as nuvens
Tomba de nariz
Que os jovens
Vão pedir bis
Que os jovens
Vão pedir bis
No intervalo
Tem cheirim de macarrão
E a barriga ronca
Mais do que um trovão
Quero um prato
Cê tá louco
Quero um pouco
Cê tá chato
Só um pedaço
Cê tá gordo
Eu te mordo
Seu palhaço
Olha o público
Cansado de esperar
O espetáculo não
Pode parar
Vinte piruetas
Trinta piruetas
Bravo, bravo
Polipiruetas
Maxipiruetas
Bravo, bravo
Sobe ao céu
Fura a calota
E tomba de bumbum
Que a patota
Grita mais um
Que a patota
Grita mais um
No intervalo
Tem cheirim de macarrão
E a barriga ronca
Mais do que um leão
Quero um prato
Cê tá louco
Quero um pouco
Cê tá chato
Só um pedaço
Cê tá gordo
Eu te mordo
Seu palhaço
Olha o público
Cansado de esperar
O espetáculo
Não pode parar
Dez mil cambalhotas
Cem mil cambalhotas
Bravo, bravo
Maxicambalhotas
Extracambalhotas
Bravo, bravo
Salta além
Da extratosfera
E cai onde cair
Que a galera
Morre de rir
Que a galera
Morre de rir
Ai, minhas costelas
Já tô vendo estrelas
Bravo, bravo
Ai, minha cachola
Não tô bom da bola
Bravo, bravo
Lona... nuvens
Tomba no hospital
Uma pirueta
Uma cabriola
Uma cambalhota
Não tô bom da bola
E o pessoal
Delira...
Maxipirulito...
Ultravioleta...
Bravo, bravo!
Duas piruetas
Bravo, bravo
Superpiruetas
Ultrapiruetas
Bravo, bravo
Salta sobre
A arquibancada
E tomba de nariz
Que a moçada
Vai pedir bis
Que a moçada
Vai pedir bis
Quatro cambalhotas
Cinco cambalhotas
Bravo, bravo
Arquicambalhotas
Hipercambalhotas
Bravo, bravo
Rompe a lona
Beija as nuvens
Tomba de nariz
Que os jovens
Vão pedir bis
Que os jovens
Vão pedir bis
No intervalo
Tem cheirim de macarrão
E a barriga ronca
Mais do que um trovão
Quero um prato
Cê tá louco
Quero um pouco
Cê tá chato
Só um pedaço
Cê tá gordo
Eu te mordo
Seu palhaço
Olha o público
Cansado de esperar
O espetáculo não
Pode parar
Vinte piruetas
Trinta piruetas
Bravo, bravo
Polipiruetas
Maxipiruetas
Bravo, bravo
Sobe ao céu
Fura a calota
E tomba de bumbum
Que a patota
Grita mais um
Que a patota
Grita mais um
No intervalo
Tem cheirim de macarrão
E a barriga ronca
Mais do que um leão
Quero um prato
Cê tá louco
Quero um pouco
Cê tá chato
Só um pedaço
Cê tá gordo
Eu te mordo
Seu palhaço
Olha o público
Cansado de esperar
O espetáculo
Não pode parar
Dez mil cambalhotas
Cem mil cambalhotas
Bravo, bravo
Maxicambalhotas
Extracambalhotas
Bravo, bravo
Salta além
Da extratosfera
E cai onde cair
Que a galera
Morre de rir
Que a galera
Morre de rir
Ai, minhas costelas
Já tô vendo estrelas
Bravo, bravo
Ai, minha cachola
Não tô bom da bola
Bravo, bravo
Lona... nuvens
Tomba no hospital
Uma pirueta
Uma cabriola
Uma cambalhota
Não tô bom da bola
E o pessoal
Delira...
Maxipirulito...
Ultravioleta...
Bravo, bravo!
Estudos - Processo Montagem
Teatro de Revista
O teatro de revista tornou-se um gênero popular no Brasil a partir do final do século XIX. Entre os principais escritores de revista estava Arthur Azevedo. Em uma de suas revistas, intitulada A Fantasia (1896), ele apresenta a seguinte definição para o gênero:
"Pimenta sim, muita pimenta
E quatro, ou cinco, ou seis lundus,
Chalaças velhas, bolorentas,
Pernas à mostra e seios nus"...
Pode-se então caracterizar o teatro de revista como um veículo de difusão de modos e costumes, como um retrato sociológico, ou como um estimulador de riso e alegria através de falas irônicas e de duplo sentido, canções "apimentadas" e hinos picarescos.
A questão visual era uma grande preocupação em peças deste gênero, pois fazia-se necessário manter o "clima" alegre, descontraído, ao mesmo tempo em que se revelava, em última instância, a hipocrisia da sociedade. Para isso, os cenários criados eram fantasiados e multicoloridos, afim de apresentar uma realidade superdimensionada. O corpo, neste contexto, era muito valorizado, fosse pelo uso de roupas exóticas, pelo desnudamento opulento ou pelas danças.
O acompanhamento musical também era uma de suas características marcantes. Seus autores acreditavam que comentar a realidade cotidiana com a ajuda da música tornava mais agradável e eficiente a transmissão das mensagens.
Além disso, destacavam-se como elementos composicionais de uma revista o texto em verso, a presença da opereta, da comédia musicada, das representações folclóricas - o pastoril e fandango -, e da dança.
Importante ressaltar que o teatro de revista visava a agradar a diferentes segmentos da sociedade. Os elementos que a caracterizam são demonstrativos disso. A forma popular de representação abrangia a opereta, a ópera-cômica, o vandeville (interpretação de canções ligeiras e satíricas) e a revista, equivalentes para a pequena burguesia; e a forma aristocrática, exclusiva da nobreza, equivalia à ópera.
No conteúdo, a crítica de costumes. Essa mistura da sátira e crítica resultou, no Brasil, no que se convencionou chamar de burleta, gênero do qual Arthur Azevedo mais se apropriou para criar os enredos de suas revistas.
Teatro Bufão
Os Bufões são considerados os filhos do demônio, a quem amam. Deus, como grande artista que é não pode ter criado criaturas deformadas, aleijadas, doentes, loucas. Assim, os filhos de Deus condenam os bufões a irem morar em guetos: florestas, campos de concentração, lodaçais, nas ruas... Os Bufões oferecem o riso e a paródia aos mortais. Estão acima do ódio (sentimento antigo sofrido nos primeiros anos de banimento. Agora são indiferentes e decidem rir da sua desgraça, oferecendo uma crítica ferina à sociedade e denunciando a falsa moral encoberta por atitudes polidas) postura daqueles que já não têm mais nada a perder. Não existe criatura na Terra que tenha sofrido mais que um Bufão. O jogo exigido do ator é bastante elaborado: deve construir seu bufão, figura sempre disposta a sorrir para aqueles a quem desprezam, pois estão na constante iminência da morte (sempre existe um fascista, nazista, racista pronto a fuzilá-los); ao mesmo tempo em que constrói os personagens a quem seu bufão tem o prazer de parodiar. Os Bufões são muito espertos, devem ter agilidade para mudar o sentido do jogo, na iminência do perigo. O ator que joga o bufão deve dominar política, economia, cultura, religião.
Espetáculo Vaudeville
Gênero de entretenimento de variedades predominante nos Estados Unidos e Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930. Desenvolvendo-se a partir de muitas fontes, incluindo salas de concerto, apresentações de cantores populares, "circos de horror", museus baratos e literatura burlesca, o vaudeville tornou-se um dos mais populares tipos de empreendimento dos Estados Unidos. A cada anoitecer, uma série de números eram levados ao palco, sem nenhum relacionamento direto entre eles. Entre outros, músicos (tanto clássicos quanto populares), dançarina(o)s, comediantes, animais treinados, mágicos, imitadores de ambos os sexos, acrobatas, peças em um único ato ou cenas de peças, atletas, palestras dadas por celebridades, cantores de rua e filmetes.
Material pesquisado e enviado pelo Gunar.
O teatro de revista tornou-se um gênero popular no Brasil a partir do final do século XIX. Entre os principais escritores de revista estava Arthur Azevedo. Em uma de suas revistas, intitulada A Fantasia (1896), ele apresenta a seguinte definição para o gênero:
"Pimenta sim, muita pimenta
E quatro, ou cinco, ou seis lundus,
Chalaças velhas, bolorentas,
Pernas à mostra e seios nus"...
Pode-se então caracterizar o teatro de revista como um veículo de difusão de modos e costumes, como um retrato sociológico, ou como um estimulador de riso e alegria através de falas irônicas e de duplo sentido, canções "apimentadas" e hinos picarescos.
A questão visual era uma grande preocupação em peças deste gênero, pois fazia-se necessário manter o "clima" alegre, descontraído, ao mesmo tempo em que se revelava, em última instância, a hipocrisia da sociedade. Para isso, os cenários criados eram fantasiados e multicoloridos, afim de apresentar uma realidade superdimensionada. O corpo, neste contexto, era muito valorizado, fosse pelo uso de roupas exóticas, pelo desnudamento opulento ou pelas danças.
O acompanhamento musical também era uma de suas características marcantes. Seus autores acreditavam que comentar a realidade cotidiana com a ajuda da música tornava mais agradável e eficiente a transmissão das mensagens.
Além disso, destacavam-se como elementos composicionais de uma revista o texto em verso, a presença da opereta, da comédia musicada, das representações folclóricas - o pastoril e fandango -, e da dança.
Importante ressaltar que o teatro de revista visava a agradar a diferentes segmentos da sociedade. Os elementos que a caracterizam são demonstrativos disso. A forma popular de representação abrangia a opereta, a ópera-cômica, o vandeville (interpretação de canções ligeiras e satíricas) e a revista, equivalentes para a pequena burguesia; e a forma aristocrática, exclusiva da nobreza, equivalia à ópera.
No conteúdo, a crítica de costumes. Essa mistura da sátira e crítica resultou, no Brasil, no que se convencionou chamar de burleta, gênero do qual Arthur Azevedo mais se apropriou para criar os enredos de suas revistas.
Teatro Bufão
Os Bufões são considerados os filhos do demônio, a quem amam. Deus, como grande artista que é não pode ter criado criaturas deformadas, aleijadas, doentes, loucas. Assim, os filhos de Deus condenam os bufões a irem morar em guetos: florestas, campos de concentração, lodaçais, nas ruas... Os Bufões oferecem o riso e a paródia aos mortais. Estão acima do ódio (sentimento antigo sofrido nos primeiros anos de banimento. Agora são indiferentes e decidem rir da sua desgraça, oferecendo uma crítica ferina à sociedade e denunciando a falsa moral encoberta por atitudes polidas) postura daqueles que já não têm mais nada a perder. Não existe criatura na Terra que tenha sofrido mais que um Bufão. O jogo exigido do ator é bastante elaborado: deve construir seu bufão, figura sempre disposta a sorrir para aqueles a quem desprezam, pois estão na constante iminência da morte (sempre existe um fascista, nazista, racista pronto a fuzilá-los); ao mesmo tempo em que constrói os personagens a quem seu bufão tem o prazer de parodiar. Os Bufões são muito espertos, devem ter agilidade para mudar o sentido do jogo, na iminência do perigo. O ator que joga o bufão deve dominar política, economia, cultura, religião.
Espetáculo Vaudeville
Gênero de entretenimento de variedades predominante nos Estados Unidos e Canadá do início dos anos 1880 ao início dos anos 1930. Desenvolvendo-se a partir de muitas fontes, incluindo salas de concerto, apresentações de cantores populares, "circos de horror", museus baratos e literatura burlesca, o vaudeville tornou-se um dos mais populares tipos de empreendimento dos Estados Unidos. A cada anoitecer, uma série de números eram levados ao palco, sem nenhum relacionamento direto entre eles. Entre outros, músicos (tanto clássicos quanto populares), dançarina(o)s, comediantes, animais treinados, mágicos, imitadores de ambos os sexos, acrobatas, peças em um único ato ou cenas de peças, atletas, palestras dadas por celebridades, cantores de rua e filmetes.
Material pesquisado e enviado pelo Gunar.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Quando eu e as máquinas pararam
sábado, 23 de outubro de 2010
Origem do palhaço
A arte do clowning existe há milhares de anos. Um palhaço pigmeu atuou como bobo na corte do Faraó Dadkeri-Assi durante a Quinta Dinastia Egípcia (cerca de 2500 A.C). Bobos da Corte atuam na China desde 1818 A.C. Através da história muitas culturas tiveram seus palhaços. Quanto Cortez conquistou a nação Azteca em 1520 D.C. descobriu que a corte de Montezuma incluía bobos similares aos da Europa. Bobos Aztecas, palhaços anões e bufões corcundas estiveram entre os tesouros que Cortez trouxe de volta ao Papa Clemente VII. Muitas tribos nativas americanas tinham algum tipo de personagem palhaço, que exerciam um importante papel na vida social e religiosa da tribo e em alguns casos se acreditava serem capazes de curar certas doenças.segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Fato Veríssimo
E com louvor agradecemos ao nosso ilustrissimo Gunar Oliveira , que compos a musica para a peça... o nome de sua composição, "Fato Veríssimo" , pode se tornar também o nome da apresentação de fim de ano
Eis a letra:
Fato Verríssimo
Repita ou aprove,
Prove desse falo
Falo do que como
como é que eu calo?
Calo se tem eu piso
Piso escorre pro ralo
Ralo-te corto
Pico e descasco
Homens:
Fatos em fatias finas...
Mulheres:
Verdades Veridíssimas...
Homens:
Feitas de acasos falhos...
Mulheres:
Veríssimo é do....
Homens:
CARALHO!!
domingo, 17 de outubro de 2010
Bagé
(Luis Fernando Veríssimo)
Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
― Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
― O senhor quer que eu deite logo no divã?
― Bom, se o amigo quiser dançar uma marca antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
― Certo, certo. Eu...
― Aceita um mate?
― Um quê? Ah, não. Obrigado.
― Pos desembucha.
― Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
― Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
― Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
― Outro...
― Outro?
― Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
― E o senhor acha...
― Eu acho uma poca vergonha.
― Mas...
― Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé.
Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
― Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
― Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
― Bem ― disse o homem ―,é que nós tivemos um desentendimento...
― Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
― Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
― Não fala comigo!
― Mas essa alta mais nervosa que gato em dia de faxina.
― Ela tem um problema de carência afetiva...
― Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
― Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extra-conjugais e...
― Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
― Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
― Ela ta procurando o verdadeiro tu nos outros?
― O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
― Mas isto ta ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.
― Eu?
― Ela. Tu espera na salinha.
Certas cidades não conseguem se livrar da reputação injusta que, por alguma razão, possuem. Algumas das pessoas mais sensíveis e menos grossas que eu conheço vêm de Bagé, assim como algumas das menos afetadas são de Pelotas.
Mas não adianta. Estas histórias do psicanalista de Bagé são provavelmente apócrifas (como diria o próprio analista de Bagé, história apócrifa é mentira bem-educada), mas, pensando bem, ele não poderia vir de outro lugar.
Pues, diz que o divã no consultório do analista de Bagé é forrado com um pelego. Ele recebe os pacientes de bombacha e pé no chão.
― Buenas. Vá entrando e se abanque, índio velho.
― O senhor quer que eu deite logo no divã?
― Bom, se o amigo quiser dançar uma marca antes, esteja a gosto. Mas eu prefiro ver o vivente estendido e charlando que nem china da fronteira, pra não perder tempo nem dinheiro.
― Certo, certo. Eu...
― Aceita um mate?
― Um quê? Ah, não. Obrigado.
― Pos desembucha.
― Antes, eu queria saber. O senhor é freudiano?
― Sou e sustento. Mais ortodoxo que reclame de xarope.
― Certo. Bem. Acho que o meu problema é com a minha mãe.
― Outro...
― Outro?
― Complexo de Édipo. Dá mais que pereba em moleque.
― E o senhor acha...
― Eu acho uma poca vergonha.
― Mas...
― Vai te metê na zona e deixa a velha em paz, tchê!
Contam que outra vez um casal pediu para consultar, juntos, o analista de Bagé.
Ele, a princípio, não achou muito ortodoxo.
― Quem gosta de aglomeramento é mosca em bicheira...
Mas acabou concordando.
― Se abanquem, se abanquem no más. Mas que parelha buenacha, tchê. Qual é o causo?
― Bem ― disse o homem ―,é que nós tivemos um desentendimento...
― Mas tu também é um bagual. Tu não sabe que em mulher e cavalo novo não se mete a espora?
― Eu não meti a espora. Não é, meu bem?
― Não fala comigo!
― Mas essa alta mais nervosa que gato em dia de faxina.
― Ela tem um problema de carência afetiva...
― Eu não sou de muita frescura. Lá de onde eu venho, carência afetiva é falta de homem.
― Nós estamos justamente atravessando uma crise de relacionamento porque ela tem procurado experiências extra-conjugais e...
― Epa. Opa. Quer dizer que a negra velha é que nem luva de maquinista? Tão folgada que qualquer um bota a mão?
― Nós somos pessoas modernas. Ela está tentando encontrar o verdadeiro eu, entende?
― Ela ta procurando o verdadeiro tu nos outros?
― O verdadeiro eu, não. O verdadeiro eu dela.
― Mas isto ta ficando mais enrolado que lingüiça de venda. Te deita no pelego.
― Eu?
― Ela. Tu espera na salinha.
Lar Desfeito
(Luis Fernando Veríssimo)
José e Maria estavam casados há 20 anos e eram muito felizes um com o outro. Tão felizes que um dia, na mesa, a filha mais velha reclamou:
— Vocês nunca brigam?
José e Maria se entreolharam. José respondeu:
— Não, minha filha. Sua mãe e eu não brigamos.
— Nunca brigaram? — quis saber Vítor, o filho do meio.
— Claro que já brigamos. Mas sempre fizemos as pazes.
— Na verdade, brigas, mesmo, nunca tivemos. Desentendimentos, como todo mundo. Mas sempre nos demos muito bem...
— Coisa mais chata — disse Venancinho, o menor.
Vera, a filha mais velha, tinha uma amiga, Nora, que a deixava fascinada com suas histórias de casa. Os pais de Nora viviam brigando. Era um drama. Nora contava tudo para Vera. Às vezes chorava. Vera consolava a amiga. Mas no fundo tinha uma certa inveja. Nora era infeliz. Devia ser bacana ser infeliz assim. O sonho de Vera era ter um problema em casa para poder ser revoltada como Nora. Ter olheiras como Nora.
Vítor, o filho do meio, freqüentava muito a casa de Sérgio, seu melhor amigo. Os pais de Sérgio estavam separados. O pai de Sérgio tinha um dia certo para sair com ele. Domingo. Iam ao parque de diversões, ao cinema, ao futebol. O pai de Sérgio namorava uma moça do teatro. E a mãe de Sérgio recebia visitas de um senhor muito camarada que sempre trazia presentes para Sérgio.
Venancinho, o filho menor, também tinha amigos com problemas em casa. A mãe do Haroldo, por exemplo, tinha se divorciado do pai do Haroldo e casado com um cara divorciado. O padrasto de Haroldo tinha uma filha de 11 anos que podia tocar o Danúbio azul espremendo uma das mãos na axila, o que deixava a mãe do Haroldo louca. A mãe do Haroldo gritava muito com o marido.
Bacana.
— Eu não agüento mais esta situação — disse Vera, na mesa,
— Que situação, minha filha?
— Essa felicidade de vocês!
— Vocês deviam ter o cuidado de não fazer isso na nossa frente – disse Vítor.
— Mas nós não fazemos nada!
— Exatamente.
Venancinho batia com o talher na mesa e reivindicava:
— Briga. Briga. Briga.
José e Maria concordavam que aquilo não podia continuar. Precisavam pensar nas crianças. Antes de mais nada, nas crianças. Manteriam uma fachada de desacordo, ódio e desconfiança na frente deles, para esconder a harmonia. Não seria fácil. Inventariam coisas. Trocariam acusações fictícias e insultos.
Tudo para não traumatizar os filhos.
— Víbora, não! — gritou Maria, começando a erguer-se do seu lugar na mesa com a faca serrilhada na mão.
José também ergueu-se e empunhou a cadeira.
— Víbora, sim! Vem que eu te arrebento.
Maria avançou. Vera agarrou-se ao seu braço.
— Mamãe. Não!
Vítor segurou o pai. Venancinho, que estava de boca aberta e os olhos arregalados desde o começo da discussão — a pior até então —, achou melhor pular da cadeira e procurar um canto neutro da sala de jantar.
Depois daquela cena, nada mais havia a fazer. O casal teria que se separar. Os advogados cuidariam de tudo. Eles não podiam mais nem se enxergar.
Agora era Nora que consolava Vera. Os pais eram assim mesmo. Ela tinha experiência. A família era uma instituição podre. Sozinha, na frente do espelho, Vera imitava a boca de desdém de Nora.
— Podre. Tudo podre.
E esfregava os olhos, para que ficassem vermelhos. Ainda não tinha olheiras, mas elas viriam com o tempo. Ela seria amarga e agressiva. A pálida filha de um lar desfeito. Um pouco de pó-de-arroz talvez ajudasse.
Vítor e Venancinho saíam aos domingos com o pai. Uma vez foram ao Maracanã junto com Sérgio, o pai do Sérgio e a namorada do pai do Sérgio, a moça do teatro. O pai do Sérgio perguntou se José não gostaria de conhecer uma amiga da sua namorada. Assim poderiam fazer mais programas juntos. José disse que achava que não. Precisava de tempo para se acostumar com sua nova situação. Sabe como é.
Maria não tinha namorado. Mas no mínimo duas vezes por semana desaparecia de casa, depois voltava menos nervosa. Os filhos tinham certeza de que ela ia se encontrar com um homem.
— Eles desconfiam de alguma coisa? — perguntou José.
— Acho que não — respondeu Maria.
Estavam os dois no motel onde se encontravam, no mínimo duas vezes por semana, escondidos.
— Será que fizemos o certo?
— Acho que sim. As crianças agora não se sentem mais deslocadas no meio dos amigos. Fizemos o que tinha que ser feito.
— Será que algum dia vamos poder viver juntos outra vez?
— Quando as crianças saírem de casa. Aí então estaremos livres das convenções sociais. Não precisaremos mais manter as aparências.
Me beija.
José e Maria estavam casados há 20 anos e eram muito felizes um com o outro. Tão felizes que um dia, na mesa, a filha mais velha reclamou:
— Vocês nunca brigam?
José e Maria se entreolharam. José respondeu:
— Não, minha filha. Sua mãe e eu não brigamos.
— Nunca brigaram? — quis saber Vítor, o filho do meio.
— Claro que já brigamos. Mas sempre fizemos as pazes.
— Na verdade, brigas, mesmo, nunca tivemos. Desentendimentos, como todo mundo. Mas sempre nos demos muito bem...
— Coisa mais chata — disse Venancinho, o menor.
Vera, a filha mais velha, tinha uma amiga, Nora, que a deixava fascinada com suas histórias de casa. Os pais de Nora viviam brigando. Era um drama. Nora contava tudo para Vera. Às vezes chorava. Vera consolava a amiga. Mas no fundo tinha uma certa inveja. Nora era infeliz. Devia ser bacana ser infeliz assim. O sonho de Vera era ter um problema em casa para poder ser revoltada como Nora. Ter olheiras como Nora.
Vítor, o filho do meio, freqüentava muito a casa de Sérgio, seu melhor amigo. Os pais de Sérgio estavam separados. O pai de Sérgio tinha um dia certo para sair com ele. Domingo. Iam ao parque de diversões, ao cinema, ao futebol. O pai de Sérgio namorava uma moça do teatro. E a mãe de Sérgio recebia visitas de um senhor muito camarada que sempre trazia presentes para Sérgio.
Venancinho, o filho menor, também tinha amigos com problemas em casa. A mãe do Haroldo, por exemplo, tinha se divorciado do pai do Haroldo e casado com um cara divorciado. O padrasto de Haroldo tinha uma filha de 11 anos que podia tocar o Danúbio azul espremendo uma das mãos na axila, o que deixava a mãe do Haroldo louca. A mãe do Haroldo gritava muito com o marido.
Bacana.
— Eu não agüento mais esta situação — disse Vera, na mesa,
— Que situação, minha filha?
— Essa felicidade de vocês!
— Vocês deviam ter o cuidado de não fazer isso na nossa frente – disse Vítor.
— Mas nós não fazemos nada!
— Exatamente.
Venancinho batia com o talher na mesa e reivindicava:
— Briga. Briga. Briga.
José e Maria concordavam que aquilo não podia continuar. Precisavam pensar nas crianças. Antes de mais nada, nas crianças. Manteriam uma fachada de desacordo, ódio e desconfiança na frente deles, para esconder a harmonia. Não seria fácil. Inventariam coisas. Trocariam acusações fictícias e insultos.
Tudo para não traumatizar os filhos.
— Víbora, não! — gritou Maria, começando a erguer-se do seu lugar na mesa com a faca serrilhada na mão.
José também ergueu-se e empunhou a cadeira.
— Víbora, sim! Vem que eu te arrebento.
Maria avançou. Vera agarrou-se ao seu braço.
— Mamãe. Não!
Vítor segurou o pai. Venancinho, que estava de boca aberta e os olhos arregalados desde o começo da discussão — a pior até então —, achou melhor pular da cadeira e procurar um canto neutro da sala de jantar.
Depois daquela cena, nada mais havia a fazer. O casal teria que se separar. Os advogados cuidariam de tudo. Eles não podiam mais nem se enxergar.
Agora era Nora que consolava Vera. Os pais eram assim mesmo. Ela tinha experiência. A família era uma instituição podre. Sozinha, na frente do espelho, Vera imitava a boca de desdém de Nora.
— Podre. Tudo podre.
E esfregava os olhos, para que ficassem vermelhos. Ainda não tinha olheiras, mas elas viriam com o tempo. Ela seria amarga e agressiva. A pálida filha de um lar desfeito. Um pouco de pó-de-arroz talvez ajudasse.
Vítor e Venancinho saíam aos domingos com o pai. Uma vez foram ao Maracanã junto com Sérgio, o pai do Sérgio e a namorada do pai do Sérgio, a moça do teatro. O pai do Sérgio perguntou se José não gostaria de conhecer uma amiga da sua namorada. Assim poderiam fazer mais programas juntos. José disse que achava que não. Precisava de tempo para se acostumar com sua nova situação. Sabe como é.
Maria não tinha namorado. Mas no mínimo duas vezes por semana desaparecia de casa, depois voltava menos nervosa. Os filhos tinham certeza de que ela ia se encontrar com um homem.
— Eles desconfiam de alguma coisa? — perguntou José.
— Acho que não — respondeu Maria.
Estavam os dois no motel onde se encontravam, no mínimo duas vezes por semana, escondidos.
— Será que fizemos o certo?
— Acho que sim. As crianças agora não se sentem mais deslocadas no meio dos amigos. Fizemos o que tinha que ser feito.
— Será que algum dia vamos poder viver juntos outra vez?
— Quando as crianças saírem de casa. Aí então estaremos livres das convenções sociais. Não precisaremos mais manter as aparências.
Me beija.
A Mentira
(Luis Fernando Veríssimo)
João chegou em casa cansado e disse para sua mulher, Maria, que queria tomar um banho, jantar e ir direto para a cama. Maria lembrou a João que naquela noite eles tinham ficado de jantar na casa de Pedro e Luíza.
João deu um tapa na testa, disse um palavrão e declarou que, de maneira nenhuma, não iria jantar na casa de ninguém. Maria disse que o jantar estava marcado há uma semana e seria uma falta de consideração com Pedro e Luíza, que afinal eram seus amigos, deixar de ir. João reafirmou que não ia. Encarregou Maria de telefonar para Luíza e dar uma desculpa qualquer. Que marcassem o jantar para a noite seguinte. Maria telefonou para Luíza e disse que João chegara em casa muito abatido, até com um pouco de febre, e que ela achava melhor não tirá-lo de casa àquela noite.
Luíza disse que era uma pena, que tinha preparado um Blanquette de Veau que era uma beleza, mas que tudo bem. Importante é a saúde e é bom não facilitar. Marcaram o jantar para a noite seguinte, se João estivesse melhor. João tomou banho, jantou e foi se deitar. Maria ficou na sala vendo televisão. Ali pelas nove bateram na porta. Do quarto, João, que ainda não dormira, deu um gemido. Maria, que já estava de camisola, entrou no quarto para pegar seu robe de chambre. João sugeriu que ela não abrisse a porta. Naquela hora só podia ser chato. Ele teria que sair da cama. Que deixasse bater. Maria concordou. Não abriu a porta.
Meia hora depois, tocou o telefone, acordando João. Maria atendeu. Era Luíza, querendo saber o que tinha acontecido.
— Por quê? — perguntou Maria.
— Nós estivemos aí há pouco, batemos, batemos e ninguém atendeu.
— Vocês estiveram aqui?
— Para saber como estava o João. O Pedro disse que andou sentindo a mesma coisa há alguns dias e queria dar umas dicas. O que houve?
— Nem te conto — contou Maria, pensando rapidamente. — O João deu uma piorada. Tentei chamar um médico e não consegui. Tivemos que ir a um hospital.
— O quê? Então é grave.
— A febre aumentou. Ele começou a sentir dores no corpo.
— Apareceram pintas vermelhas no rosto — sugeriu João, que agora estava ao lado do telefone, apreensivo.
— Estava com o rosto coberto de pintas vermelhas.
— Meu Deus. Ele já teve sarampo, catapora, essas coisas?
— Já. O médico disse que nunca tinha visto coisa igual.
— Como é que ele está agora?
— Melhor. O médico deu uns remédios. Ele está na cama.
— Vamos já para aí!
— Espere!
Mas Luíza já tinha desligado. João e Maria se entreolharam. E agora? Não podiam receber Pedro e Luíza. Como explicar a ausência das pintas vermelhas?
— Podemos dizer que o remédio que o médico deu foi milagroso. Que eu estou bom. Que podemos até sair para jantar — disse João, já com remorso.
— Eles iam desconfiar. Acho que já estão desconfiados. É por isso que vêm para cá. A Luíza não acreditou em nenhuma palavra que eu disse.
Decidiram apagar todas as luzes do apartamento e botar um bilhete na porta. João ditou o bilhete para Maria escrever.
— Bota aí: "João piorou subitamente. O médico achou melhor interná-lo. Telefonaremos do hospital."
— Eles são capazes de ir ao hospital à nossa procura.
— Não vão saber que hospital é.
— Telefonarão para todos. Eu sei. A Luíza nunca nos perdoará a Blanquette de Veau perdida.
— Então bota aí: "João piorou subitamente. Médico achou melhor interná-lo na sua clínica particular. O telefone lá é 236-6688."
— Mas esse é o telefone do seu escritório.
— Exato. Iremos para lá e esperaremos o telefonema deles.
— Mas até que a gente chegue ao seu escritório...
— Vamos embora!
Deixaram o bilhete preso na porta. Apertaram o botão do elevador. O elevador já estava subindo. Eram eles!
— Pela escada, depressa!
O carro de Pedro estava barrando a saída da garagem do edifício. Não podiam usar o carro. Demoraram para conseguir um táxi. Quando chegaram ao escritório de João, que perdeu mais tempo explicando ao porteiro a sua presença ali no meio da noite, o telefone já tocando. Maria apertou o nariz para disfarçar a voz e atendeu:
— Clínica Rochedo.
"Rochedo?!", espantou-se João, que se atirara, ofegante, numa poltrona.
— Um momentinho, por favor — disse Maria.
Tapou o fone e disse para João que era Luíza. Que mulherzinha! O que a gente faz para preservar uma amizade. E não passar por mentiroso. Maria voltou ao telefone.
— O Sr. João está no quarto 17, mas não pode receber visitas. Sua senhora? Um momentinho, por favor.
Maria tapou o fone outra vez.
— Ela quer falar comigo.
Atendeu com a sua voz normal.
— Alô, Luíza? Pois é. Estamos aqui. Ninguém sabe o que é. Está com pintas vermelhas por todo o corpo e as unhas estão ficando azuis. O quê? Não, Luíza, vocês não precisam vir para cá.
— Diz que é contagioso — sussurrou João, que com a cabeça atirada para trás preparava-se para retomar seu sono na poltrona.
— É contagioso. Nem eu posso chegar perto dele. Aliás, eles vão evacuar toda a clínica e colocar barreiras em todas as ruas aqui perto. Estão desconfiados de que é um vírus africano que...
João chegou em casa cansado e disse para sua mulher, Maria, que queria tomar um banho, jantar e ir direto para a cama. Maria lembrou a João que naquela noite eles tinham ficado de jantar na casa de Pedro e Luíza.
João deu um tapa na testa, disse um palavrão e declarou que, de maneira nenhuma, não iria jantar na casa de ninguém. Maria disse que o jantar estava marcado há uma semana e seria uma falta de consideração com Pedro e Luíza, que afinal eram seus amigos, deixar de ir. João reafirmou que não ia. Encarregou Maria de telefonar para Luíza e dar uma desculpa qualquer. Que marcassem o jantar para a noite seguinte. Maria telefonou para Luíza e disse que João chegara em casa muito abatido, até com um pouco de febre, e que ela achava melhor não tirá-lo de casa àquela noite.
Luíza disse que era uma pena, que tinha preparado um Blanquette de Veau que era uma beleza, mas que tudo bem. Importante é a saúde e é bom não facilitar. Marcaram o jantar para a noite seguinte, se João estivesse melhor. João tomou banho, jantou e foi se deitar. Maria ficou na sala vendo televisão. Ali pelas nove bateram na porta. Do quarto, João, que ainda não dormira, deu um gemido. Maria, que já estava de camisola, entrou no quarto para pegar seu robe de chambre. João sugeriu que ela não abrisse a porta. Naquela hora só podia ser chato. Ele teria que sair da cama. Que deixasse bater. Maria concordou. Não abriu a porta.
Meia hora depois, tocou o telefone, acordando João. Maria atendeu. Era Luíza, querendo saber o que tinha acontecido.
— Por quê? — perguntou Maria.
— Nós estivemos aí há pouco, batemos, batemos e ninguém atendeu.
— Vocês estiveram aqui?
— Para saber como estava o João. O Pedro disse que andou sentindo a mesma coisa há alguns dias e queria dar umas dicas. O que houve?
— Nem te conto — contou Maria, pensando rapidamente. — O João deu uma piorada. Tentei chamar um médico e não consegui. Tivemos que ir a um hospital.
— O quê? Então é grave.
— A febre aumentou. Ele começou a sentir dores no corpo.
— Apareceram pintas vermelhas no rosto — sugeriu João, que agora estava ao lado do telefone, apreensivo.
— Estava com o rosto coberto de pintas vermelhas.
— Meu Deus. Ele já teve sarampo, catapora, essas coisas?
— Já. O médico disse que nunca tinha visto coisa igual.
— Como é que ele está agora?
— Melhor. O médico deu uns remédios. Ele está na cama.
— Vamos já para aí!
— Espere!
Mas Luíza já tinha desligado. João e Maria se entreolharam. E agora? Não podiam receber Pedro e Luíza. Como explicar a ausência das pintas vermelhas?
— Podemos dizer que o remédio que o médico deu foi milagroso. Que eu estou bom. Que podemos até sair para jantar — disse João, já com remorso.
— Eles iam desconfiar. Acho que já estão desconfiados. É por isso que vêm para cá. A Luíza não acreditou em nenhuma palavra que eu disse.
Decidiram apagar todas as luzes do apartamento e botar um bilhete na porta. João ditou o bilhete para Maria escrever.
— Bota aí: "João piorou subitamente. O médico achou melhor interná-lo. Telefonaremos do hospital."
— Eles são capazes de ir ao hospital à nossa procura.
— Não vão saber que hospital é.
— Telefonarão para todos. Eu sei. A Luíza nunca nos perdoará a Blanquette de Veau perdida.
— Então bota aí: "João piorou subitamente. Médico achou melhor interná-lo na sua clínica particular. O telefone lá é 236-6688."
— Mas esse é o telefone do seu escritório.
— Exato. Iremos para lá e esperaremos o telefonema deles.
— Mas até que a gente chegue ao seu escritório...
— Vamos embora!
Deixaram o bilhete preso na porta. Apertaram o botão do elevador. O elevador já estava subindo. Eram eles!
— Pela escada, depressa!
O carro de Pedro estava barrando a saída da garagem do edifício. Não podiam usar o carro. Demoraram para conseguir um táxi. Quando chegaram ao escritório de João, que perdeu mais tempo explicando ao porteiro a sua presença ali no meio da noite, o telefone já tocando. Maria apertou o nariz para disfarçar a voz e atendeu:
— Clínica Rochedo.
"Rochedo?!", espantou-se João, que se atirara, ofegante, numa poltrona.
— Um momentinho, por favor — disse Maria.
Tapou o fone e disse para João que era Luíza. Que mulherzinha! O que a gente faz para preservar uma amizade. E não passar por mentiroso. Maria voltou ao telefone.
— O Sr. João está no quarto 17, mas não pode receber visitas. Sua senhora? Um momentinho, por favor.
Maria tapou o fone outra vez.
— Ela quer falar comigo.
Atendeu com a sua voz normal.
— Alô, Luíza? Pois é. Estamos aqui. Ninguém sabe o que é. Está com pintas vermelhas por todo o corpo e as unhas estão ficando azuis. O quê? Não, Luíza, vocês não precisam vir para cá.
— Diz que é contagioso — sussurrou João, que com a cabeça atirada para trás preparava-se para retomar seu sono na poltrona.
— É contagioso. Nem eu posso chegar perto dele. Aliás, eles vão evacuar toda a clínica e colocar barreiras em todas as ruas aqui perto. Estão desconfiados de que é um vírus africano que...
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